sábado, 23 de maio de 2015

O Homem – Animal racional ou irracional?



Esse texto foi escrito há quase oito anos e, para minha tristeza, ainda é muito atual.

Fico pensando na quantidade de notícias que escuto sobre maltrato que os homens, seres racionais, praticam contra os animais, sejam domésticos ou não – os chamados irracionais.

Mas até que ponto nós podemos ser chamados de seres racionais? Será que estamos usando o nosso bom senso e a nossa racionalidade quando maltratamos nossos companheiros diários e os nossos meios de subsistência? Vejo e ouço muitos casos de maltrato e até de crueldade com esses animais, que muitas vezes nem sabem o que está acontecendo, e consequentemente o porquê de estarem sendo agredidos.

Um dos casos mais fáceis de ser percebidos é o do carroceiro que não consegue ou não quer perceber que o cavalo, jumento ou o jegue não tem condições de puxar uma carroça com uma carga altíssima, e mesmo assim ele chicoteia sem pena ou espanca o pobre animal. Muitas vezes sem nem se dar conta de que aquele animal também precisa de um pouco de respeito, pois também é um ser vivo e por isso tem seus limites físicos.

Outro caso é o de donos de cães e gatos que todos adoram quando são filhotes, pois são muito lindos e fofinhos, mas conforme vão crescendo e envelhecendo são largados como se fossem meros objetos de decoração das nossas casas. Certa vez estava passando de carro pela Linha Vermelha, uma via de alta velocidade aqui do Rio de Janeiro, por um trecho onde não havia residências num raio bastante respeitável de quilômetros quando vi um cão andando pelo acostamento. Por não ter nenhuma residência perto da região onde estava e o animal aparentar já estar na fase adulta só poderia supor que ele fora abandonado. Agora que tipo de ser humano(?) abandona um animal numa via onde a velocidade média é de 100 km/h?

Também existem casos de animais que são abandonados quando estão velhos ou doentes. Lembro agora que alguns animais, principalmente os cães, apegam-se às pessoas e quando chegam à velhice querem ficar perto de quem eles sempre consideraram como seus companheiros e quando se veem longe de seus donos sentem-se abandonados. Lembro agora de um cão que tivemos que, quando já estava bem velhinho, aonde nos íamos ele sempre estava perto da gente, com o seu andar já bem vagaroso.

Não podemos nos esquecer dos casos de maldade gratuita, como o caso que aconteceu numa cidade gaúcha, onde três jovens por não ter o que fazer e para vencer o tédio decidiram amarrar uma cadela ao seu automóvel e andar pela cidade por vários quilômetros. Nem preciso relatar o final da estória para termos uma noção do tamanho da crueldade. Houve também um caso mais recente, na cidade de São Paulo, de um homem que deixou seu cachorro sem alimento por quase três meses e ainda queria enterrá-lo vivo.

Relatos de maus tratos contra os animais temos diversos, infelizmente. Mas quando vamos ter consciência de que qualquer forma de vida, seja animal, vegetal ou humana deve ser respeitada? Infelizmente a mídia não dá muito destaque aos crimes cometidos contra os animais chamados domésticos, sejam de carga ou de companhia. Dá-se importância à vida dos animais silvestres sem perceber que bem embaixo dos seus narizes, muitas vezes nas portas das suas redações, acontecem crimes contra os animais urbanos.

Nossa intenção não é que papariquemos ou cometamos exageros ao tratar dos nossos animais e dos que vivem pelas ruas, mas que tenhamos pelo menos o mínimo de respeito por todos os animais sejam silvestres, urbanos, de carga ou domésticos. Que possamos enxergar nesses seres companheiros de habitat e quando testemunharmos algum tipo de agressão que façamos uma denúncia e, dessa forma, provemos que somos capazes de exibir o título de animais racionais, porque o mau trato aos animais também é crime.

Tonni Nascimento

Publicado originalmente em Pontos de vista em 9/06/2007.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Somos todos humanos



Semana passada nossa sociedade foi tomada por uma avalanche de protestos prós e contras a uma campanha criada em decorrência de uma violência praticada contra uma travesti dentro de uma unidade de detenção de São Paulo.

Para quem não sabe do que se trata, é o seguinte: Em São Paulo a travesti Verônica Bolina foi presa acusada de agressão física a uma senhora de 73 anos. Depois de presa ela agrediu um carcereiro arrancando parte da sua orelha e foi espancada por policiais, tendo sua imagem (pós-espancamento) divulgada pelas redes sociais. Após esse fato iniciou-se uma campanha na internet com o título “Somos todas Verônica” em apoio e repúdio à violência sofrida por ela. A campanha tem recebido diversas manifestações tanto prós quanto contra com os mais diversos argumentos. Indo dos mais coerentes aos mais absurdos e animalescos. Mas por que tudo isso? Não vou entrar aqui na questão dela ser culpada ou não dos crimes contra os quais ela foi acusada e presa, entretanto vou propor a quem me lê a fazer uma reflexão.

O que nos diferencia, seres humanos, dos outros animais que vivem no planeta? A capacidade de raciocinar e, por consequência, de resolver questões das mais simples às mais complexas de forma racional, justa e imparcial, permitindo assim que nossa sociedade se autoproteja dos indivíduos que venham a perturbar esse processo. Essa autoproteção não exclui ninguém, ou pelo menos não deveria, ela tem que servir a todos sem exceção de qualquer que seja a parcela da sociedade.

Partindo dos pressupostos acima citados não há a menor possibilidade de um ser humano em totais condições mentais ser a favor da violência praticada contra Verônica. Não estou aqui aplaudindo o crime pelo qual ela está sendo acusada, mas deixando claro que o papel da sociedade é cuidar que os cidadãos que quebram os acordos sociais de comportamento e autoproteção sejam punidos de acordo com a lei de forma justa. E, para que isso ocorra, uma das primeiras ações é protegê-los de si mesmos ou dos que acreditam que tem o direito de praticar sua própria lei. E não foi o que ocorreu nesse caso. Verônica foi espancada dentro de uma unidade pública por aqueles que deveriam protegê-la.

É inadmissível que em pleno século 21 ainda tenhamos que conviver com atitudes que nos remetem a tempos onde cada um praticava sua lei. Já deveríamos estar cansados de tantos casos de “justiça” praticada com as próprias mãos, sejam com supostos criminosos ou réus confessos. Temos um sistema de justiça, que por mais falho que seja é o que temos e é o que devemos respeitar. É chegada a hora em que a sociedade comece a questionar o que ela realmente quer para si, se uma civilização justa ou uma que sempre volte aos tempos de barbárie.

Tonni Nascimento

Publicado  originalmente em Pontos de vista em 21/04/2015.

domingo, 12 de abril de 2015

Romance em doze linhas















Quanto tempo falta pra gente se ver hoje
Quanto tempo falta pra gente se ver logo

Quanto tempo falta pra gente se ver todo dia

Quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre

Quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não

Quanto tempo falta pra gente se ver às vezes

Quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos

Quanto tempo falta pra gente não querer se ver

Quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais

Quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu

Quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer

Quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.



Bruna Beber

domingo, 22 de março de 2015

Planeta água




Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre um profundo grotão
Água que faz inocente riacho
e deságua na corrente do ribeirão

Águas escuras dos rios
que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias
e matam a sede da população

Águas que caem das pedras
no véu das cascatas, ronco de trovão
E depois dormem tranquilas
no leito dos lagos, no leito dos lagos

Água dos igarapés, onde Iara, a mãe d'água
é misteriosa canção
Água que o sol evapora, pro céu vai embora,
virar nuvem de algodão

Gotas de água da chuva,
alegre arco-íris sobre a plantação
Gotas de água da chuva,
tão tristes, são lágrimas na inundação

Águas que movem moinhos
são as mesmas águas que encharcam o chão
E sempre voltam humildes
pro fundo da terra, pro fundo da terra

Terra, planeta água,
Terra, planeta água,
Terra, planeta água!

Guilherme Arantes

terça-feira, 17 de março de 2015

O Brasil e sua democracia quase infantil



Tenho um colega que quando quer me ofender me chama de petista. Isso não me ofende, até porque não vejo o adjetivo ofensivo. Mas não sei realmente o que ele pensa que é ser petista, mas acredito que não deve ser boa coisa. E, analisando os fatos do domingo (15/03), infelizmente, creio que ele não é o único. Nós brasileiros já passamos por um período onde quem discordava do governo não podia expressar sua opinião sem correr risco de morrer. Não pretendo aqui dar uma aula de história, pois os fatos estão aí para quem quiser realmente se informar sobre o que realmente aconteceu no nosso país.

Vendo e ouvindo as notícias e comentários sobre as manifestações tive a ideia desse texto. As chamadas para as passeatas incluíam a luta contra a corrupção, o governo e a presidente Dilma. Mas na prática o que vimos? Ataques contra a presidente, mas não vi nada (realmente) contra a corrupção. Vi milhares de pessoas utilizando o seu sagrado e democrático direito de se manifestar contra um partido político e uma pessoa que não são os que decidiram o passado e muito menos decidem sozinhos o presente e o futuro da nação.

Como disse, sou, às vezes, chamado de petista. Não nego que concordo com algumas posições do PT. Todavia discordo de outras, prefiro classificar-me como uma pessoa com visão política de centro-esquerda. Mesmo não sendo petista, não tem como não registrar alguns absurdos que vi. Pessoas acusando o PT/Dilma de não poderem mais ter o direito de acesso ao trabalho escravo, ofensas pessoais a presidente, a volta da ditadura, entre outros tantos absurdos. As pessoas devem procurar entender como é o nosso processo político. Mesmo sendo uma república presidencialista o presidente não decide tudo sozinho. Ele quase sempre vai precisar do apoio e aprovação do congresso nacional para questões de relevância nacional.

Muitas das opções de corruptibilidade existem por que o nosso processo é gerenciado por pessoas que fazem o que querem não em beneficio do povo, mas em beneficio dos grupos que os elegeram. E, por isso, criam entraves para os projetos que realmente interessam ao país ou os apoiam em troca de interesses pessoais. Esse processo, infelizmente, ocorre hoje, ocorreu no passado e vai continuar ocorrendo se não se fizerem as mudanças que são necessárias.

Ao invés de ir às ruas por birra política, incitados por setores da mídia e sociedade. As pessoas devem ir também para exigir que o legislativo faça o trabalho para o qual foi eleito: buscar o bem estar da sociedade como um todo e não o de alguns grupos. Devemos exigir que congresso e governo se unam para que as reformas, que há anos, circulam pelos corredores de Brasília saiam do papel. Desse modo teremos meios mais eficazes para coibir e, quem sabe, acabar com os escândalos que há anos assolam o nosso país. Não é tirando um presidente ou um partido do poder que iremos conseguir o Brasil que queremos. Temos é que aprender a votar e viver de forma realmente democrática para um dia termos um país melhor.

Tonni Nascimento


Publicado  originalmente no blog Pontos de vista.
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