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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Meu povo, meu poema



Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta

Ferreira Gullar
 

sábado, 31 de outubro de 2015

A abelha



Para que a abelha, nossa irmã, produza
mel saboroso que, entre ceras, vaza,
há muita gente precavida que usa
plantar roseiras em redor da casa.

E é por isso, mortal, que a minha musa,
que, a te servir, por este sol que se abrasa,
só te oferece do cortiço e da asa
um mel, ou um pólen, que te amarga e acusa.

Não te queixes, portanto, se algum travo
Achares, sempre que um zumbido acene
a apressada fatura de algum favo.

O próprio inseto amolda-se ao suborno:
se não queres que a abelha te envenene
não lhe plantes mandrágoras em torno...

Humberto de Campos

sábado, 19 de setembro de 2015

Pés de galinha


 
Passei a infância toda
Achando que a minha mãe
Gostava de pés de galinha,
Comia com tanto gosto
Chupava até os ossinhos.

"Ninguém come os pés, são meus"- dizia
Toda a carne dividia
Peito, coxas e titela,
Fígado, coração e muela,
Mas os pés, os pés era só prá ela.

Depois de todos servidos,
Então sentava e comia.
Mas o tempo foi passando,
A criançada crescendo,
Os maiores trabalhando,
A vida foi melhorando.

Depois de uma infância dura
Começamos Ter fartura.
Vi minha mãe na cozinha
Tratando de uma galinha
E ao contrário de outrora
Flagrei aquela velhinha
Jogando os pezinhos fora

Ao notar o meu espanto
Aquele coração santo
Da minha doce mãezinha
Apressou-se em explicar:
"Nunca gostei do tal do pé de galinha"
É que a carne era tão pouca,
Prá tantas bocas não dava,
E prá você não ficar triste
Eu fingia que gostava."

Por Bernardo Alves

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Vou amar





Vou amar a quem estiver à minha volta,
tanto quanto os que não estão.
Vou amar a vida que tenho
e aquelas que anseio a chegada.
Vou amar os amigos que tenho
e os o inimigos que, por ventura, surgirem.
Vou amar a minha família
e os agregados que forem surgindo.

Vou amar os meus problemas
da mesma forma que as soluções.
Vou amar o meu trabalho
como amo os dias de folga.
Vou amar àquela com quem sonho
mesmo quando acordo sozinho.
Vou amar os seres humanos
como amo os animais.

Decisão que tomei para a vida:
Vou amar e ponto final.

Firmino Maya
 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence o vencedor;
é ter, com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos a amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

domingo, 12 de abril de 2015

Romance em doze linhas















Quanto tempo falta pra gente se ver hoje
Quanto tempo falta pra gente se ver logo

Quanto tempo falta pra gente se ver todo dia

Quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre

Quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não

Quanto tempo falta pra gente se ver às vezes

Quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos

Quanto tempo falta pra gente não querer se ver

Quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais

Quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu

Quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer

Quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.



Bruna Beber

domingo, 22 de março de 2015

Planeta água




Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre um profundo grotão
Água que faz inocente riacho
e deságua na corrente do ribeirão

Águas escuras dos rios
que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias
e matam a sede da população

Águas que caem das pedras
no véu das cascatas, ronco de trovão
E depois dormem tranquilas
no leito dos lagos, no leito dos lagos

Água dos igarapés, onde Iara, a mãe d'água
é misteriosa canção
Água que o sol evapora, pro céu vai embora,
virar nuvem de algodão

Gotas de água da chuva,
alegre arco-íris sobre a plantação
Gotas de água da chuva,
tão tristes, são lágrimas na inundação

Águas que movem moinhos
são as mesmas águas que encharcam o chão
E sempre voltam humildes
pro fundo da terra, pro fundo da terra

Terra, planeta água,
Terra, planeta água,
Terra, planeta água!

Guilherme Arantes

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